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quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Material de Apoio - Curso Professores EBD




Hermenêutica



É a disciplina da Teologia Exegética que ensina as regras para interpretar as Escrituras e a maneira de aplicá-las corretamente. Seu objetivo primário é estabelecer regras gerais e específicas de interpretação, a fim de entender o verdadeiro sentido do autor ao redigir as Escrituras. É a ciência da compreensão de textos bíblicos.
A hermenêutica propõe-se a postular métodos válidos de interpretação. Um método é todo processo racional usado para se chegar a determinada conclusões válidas. Em hermenêutica, refere-se às regras ou técnicas usadas para chegar ao conhecimento do significado original do texto.


Terminologia

O termo hermenêutica procede do verbo grego hermeneuein, usualmente traduzido por interpretar, e do substantivo hermeneia , que significa “interpretação”. Tanto o verbo quanto o substantivo podem significar “traduzir, tradução”, ou “explicar, explicação”.


Propósito da Hermenêutica

A hermenêutica propõe-se a auxiliar o obreiro e a qualquer estudante  da bíblia, a usar métodos de interpretações confiáveis, além de estabelecer os princípios fundamentais da exegese bíblica, como base para o estudo do texto na sua diversidade lingüística, cultural e histórica.
Além disso, podemos acrescentar que por fim, a hermenêutica auxilia o estudante a analisar criticamente, com critérios objetivos, os métodos e resultados de um estudo ou exegese de qualquer texto da bíblia.

Correlação entre Hermenêutica, Exegese e Eisegese

A hermenêutica precede a exegese. Esta, por sua vez, vale-se dos princípios, regras e métodos hermenêuticos em suas conclusões. O sentido literal do termo confunde-se com o vocábulo hermenêutica, de sorte que, às vezes, se usa os dois termos simultaneamente. Exegese é a aplicação dos princípios hermenêuticos para se chegar a um entendimento correto do texto. É o estudo do sentido literal do texto. Refere-se a ideia de que o intérprete está derivando o seu entendimento do texto, em vez de incutir no texto o seu entendimento. Enquanto a hermenêutica é a teoria da interpretação, a exegese é a prática. Teologicamente, a exegese é o capítulo da Teologia que estuda a interpretação, utilizando-se de modos formais de explicação, que podem ser aplicados a algumas passagens das Escrituras a fim de compreender o seu sentido. Já a Eisegese, consiste em manipular o texto para dizer o que ele não diz.
A finalidade da hermenêutica é muito mais do que interpretação. Sua finalidade é guiar-nos a uma compreensão adequada de Deus através de Cristo, a Palavra Encarnada. As interpretações dos textos do Antigo e Novo Testamento devem ter o efeito de uma preocupação evangelística e pastoral, mais do que técnica e documental. A hermenêutica deve ser um instrumento que conduz o homem a Deus.
Função da Hermenêutica e da Exegese Bíblica

Traduzir o texto original tornando-o compreensível em língua vernácula, sem sangrar o sentido primário;
Compreender o sentido do texto dentro de seu ambiente histórico-cultural e léxico-sintático;
Explicar o verdadeiro sentido do texto, em todas as dimensões possíveis (autor, audiência, condições sociais, religiosas, etc.);
Tornar a mensagem das Escrituras inteligível ao homem moderno; e
Conduzir-nos a Cristo.



Hermenêutica nos Primeiros Séculos


Três foram os centros da Igreja Cristã: Alexandria, Antioquia e o Ocidente. A escola de Alexandria deixou-se influenciar pela filosofia platônica, resultando a interpretação alegórica. São nomes representativos desse pensamento: Clemente de Alexandria e Orígenes, seu discípulo. Dizia Clemente que o sentido literal da Escritura poderia fornecer apenas um tipo de fé elementar. Em sua prática pouco se referiu ao sentido literal, raramente ao sentido moral e constantemente aplicou o sentido alegórico, por também adotar a ideia de que só este sentido levaria ao verdadeiro conhecimento.
A escola de Antioquia, também cerca de III séculos, deu grande valor ao sentido literal da Bíblia e rejeitava o método alegórico de interpretação.
O terceiro centro, o ocidental, optou por ambos os elementos das escolas de Alexandria e de Antioquia e ainda acrescentou a autoridade da tradição da igreja na interpretação da Bíblia. O que em princípio era muito bom tendo em vista os versos de II Ts 2.15 e I Tm 3.15, no que frisamos tradição dos Apóstolos e da Igreja espiritual, I Tm 6.3 e Ef. 2.20. Mas com a aceitação do Cristianismo por parte do Império Romano e conseqüente desenvolvimento e destaque da Igreja da capital, abriu-se ocasião para a direção desta presumir ter o governo das demais igrejas em outras cidades do Império e do mundo.
Esta pretendida preeminência, levou-a a esquecer da fraternidade ( Mt 20.25 a 28; I Pe 2.17; I Pe 5.2,3 ), vindo a desviar-se do amor, da mansidão e do verdadeiro Pastor, Jesus ( Jo 10.11 ). Como um abismo chama outro abismo, a Igreja romana arvorou-se de ser dona da verdade e detentora da tradição, esquecendo-se que a palavra sai de Jerusalém ( Jo 4.22; Is 2.3 ), a Jerusalém celestial ( Gl 4.26 ). E assim tendo perdido a graça de Deus, Roma vem ditar muitas aberrações e por fim a estabelecer o “ Papado “, sempre nas questões de doutrina cristã, advogando em causa própria como organização.

Esses princípios da autoridade da tradição  e da igreja foram defendidos pro Jerônimo e Agostinho. Jerônimo, homem de grande conhecimento lingüístico, é mais conhecido por sua tradução da bíblia ( a Vulgata ). Agostinho é conhecido por sua sistematização das interpretações bíblicas, e não na interpretação das Sagradas Escrituras, mas entendia ser necessária a consideração do sentido literal e nele se basear o sentido alegórico e, quando o sentido das Escrituras era dúbio, dizia ser necessário ouvir a afirmação da igreja ( romana ) e nisto foi influenciada interpretação na Idade Média.





Interpretação na Idade Média

Nesse período, o princípio estabelecido era de que a interpretação das Escrituras tinha de adaptar-se à tradição e à doutrina da Igreja Romana. Entendia-se ser mais sábio reproduzir e descobrir na Bíblia os ensinos já adotados pela Igreja. Era muito acatado o dito: “aprende primeiro o que deves crer e então vai à bíblia para encontrar a confirmação”. Com isto nenhum princípio hermenêutico surgiu e muitos viviam em total ignorância da bíblia e a interpretação ficou deploravelmente amarrada pela tradição e pela autoridade da igreja romana.
Apesar de tudo, pelo alguns começaram a ver a incongruência de tal ponto de vista. Tomás de Aquino em seus escritos assim deixou transparecer, enquanto que Nicolau de Lira queixou-se do sentido alegórico “ permitido para sufocar o literal “, ao mesmo tempo que insistia na referência aos originais. Seu trabalho veio, mais tarde, a repercutir na reforma.




Período da Reforma


Nos séculos XIV e XV, muitos eram os teólogos que nunca tinham lido toda a bíblia e a única tradução utilizada era a de Jerônimo. Com a Renascença, as atenções foram despertadas para os originais, foram editados dicionários e gramáticas da língua hebraica e foi quando também surgiu a primeira edição crítica do Novo Testamento Grego. Assim os vários sentidos atribuídos às mensagens da bíblia foram progressivamente abandonados e formou-se o princípio de que a bíblia tem um único sentido.
Os reformadores tinham a Bíblia como a Palavra de Deus inspirada, a verdadeira autoridade e a corte final de apelação para os assuntos teológicos, donde resultou grande habilidade e liberdade no trato das Sagradas Letras. Contra a ideia da infabilidade da igreja (no caso a romana) eles apresentaram a infabilidade das Sagradas Escrituras. Assim afirmavam: “não é a igreja que determina o que as Escrituras ensinam, mas as Escrituras determinam o que a igreja deve ensinar” (II Tm 3.16,17; I Pe 1.19).

No período da Reforma evidenciaram-se:

Ø      Lutero – que salientou a necessidade de se considerar o contexto e a circunstância histórica, apontava ser necessário ao intérprete intuição espiritual, a fé. Pretendeu encontrar Cristo em toda parte da Escrituras.
Ø      Melanchthon – de grande conhecimento de grego e hebraico e de muito talento seguiu os princípios de que: 1- as escrituras devem ser entendidas gramaticalmente antes de o serem teologicamente; 2- as Escrituras têm apenas um simples e determinado sentido.
Ø      Calvino – considerado o maior exegeta da Reforma, suas exposições abrangem quase toda a bíblia. Adotou os mesmos princípios de Lutero e Melanchthon; aborrecia o método alegórico, dizendo obscurecer este o verdadeiro sentido das Escrituras. Acreditava firmemente na significação tipológica do Antigo Testamento. Por fim lembremos que assim afirmava: “ o primeiro dever do intérprete é permitir que o autor diga o que realmente diz, ao invés de lhe atribuir o que pensamos o que devia dizer “ .

Dos reformadores resultaram os dois princípios fundamentais da hermenêutica bíblica:

A Escritura é intérprete da Escritura.
O ensino da Escritura é uniforme.

Quanto à igreja do Ocidente, esta não progrediu no campo da exegese, paralisada pelo critério segundo o qual a Bíblia devia ser interpretada em harmonia com a tradição ditada de Roma. O Concílio de Trento enfatizou isto, e também que toda interpretação estivesse de acordo com a autoridade da igreja.










Métodos de interpretação


1.  Gramático-histórico

2.  Histórico-crítico

3.  Alegórico


Método alegórico



O termo “alegoria” procede da combinação de dois termos gregos, allos, isto é, “outro”, agoreyo, “falar ou proclamar”. Literalmente significa “dizer uma coisa que significa outra”.
O vocábulo “alegoria” aparece em Gálatas 4,24, a fim de indicar a explicação ou expressão de alguma coisa por meio do nome ou imagem de outra.
Como figura literária a alegoria é uma metáfora estendida é um recurso literário válido e útil, porém, como sistema de interpretação mutila o texto bíblico.
De acordo com o método alegórico, o sentido literal e histórico das Escrituras é completamente desprezado, e cada palavra e acontecimento são transformados em alegoria de algum tipo.
O método alegórico despreza o significado comum e ordinário das palavras, especulando sobre o sentido místico de cada uma delas;
Ignora a intenção do autor, inserindo no texto todo o tipo de extravagância ou fantasias que um intérprete possa desejar;
O intérprete que usa o método alegórico rejeita os métodos válidos de interpretação.
A autoridade básica da interpretação deixa de ser a Bíblia e passa a ser a mente engenhosa do intérprete.
O método alegórico foi usado pelas escolas filosóficas gregas no afã de interpretar os poemas de Homero e Hesíodo, e reduzir os problemas teóricos e religiosos entre a tradição religiosa e a herança filosófica.
Filo provavelmente foi o maior defensor do método alegórico de interpretação. Acreditava que o método literal era uma forma imatura de compreensão que deveria ser superado pelo alegórico.


Método histórico-crítico


O iluminismo trouxe seus efeitos para a teologia. Observemos alguns deles:
a.     Rejeição do sobrenatural e da revelação;
b.     Interpretação dominada pelo racionalismo;
c.      Impacto na interpretação da Bíblia;
d.     Abando da doutrina da inspiração; e
e.      Surgimento do conceito de “mito”.





Método gramático-histórico


Depois de apresentado os dois métodos anteriores este próximo é o recomendado para uma boa interpretação bíblica, pois é o utilizado pelos reformadores. Ainda que tenha sido estudado com mais detalhe anos a frente da reforma ainda é antes dela. A igreja do primeiro século se utilizou desse método. Até mesmo os apóstolos se utilizaram ( Atos 2.15-36 ) dentre outros comentados em sala de aula.

Este método parte do pressuposto que a Bíblia é a infalível e inerrante palavra de Deus. O método valoriza a estrutura do texto, pois a bíblia foi inspirada escrita por homens de variadas culturas, épocas, conhecimentos, etc. então para entender o que Deus está falando é preciso conhecer o estilo, a forma de escrita do texto. Exige mais tempo dos estudantes da bíblia, orar e estudar, renúncia do caminho fácil, obriga-nos a encarar o que realmente a bíblia está dizendo e força a igreja a investir na preparação de seus obreiros que sejam competentes pra interpretar o que a bíblia realmente está dizendo.
A bíblia é um livro divino e deve ser lido como tal, porém é também humano e então está sujeita a análise gramatical, interpretação, tradução, sintaxe. O método GH mantém em equilíbrio a tensão entre oração e labutar no estudo da Bíblia. Adota o binômio orare et labutare.
Orare: porque a Bíblia é divina;
Labutare: porque a Bíblia é humana.

Luzes da prória Bíblia


Tendo em vista a ressalva por nós feita de que o Senhor é que abre ou retém o conhecimento dos seus mistérios ( II Pe 1.20; Dt 29.29 ), o primeiro princípio da Hermenêutica Bíblica dita  que o intérprete das Escrituras é a Escritura. Assim, quando na operação de interpretação, a própria Bíblia fornecerá as luzes, o esclarecimento, daquilo que procuramos desvendar. Notemos que o Senhor Jesus corrigiu os erros dos chefes de Israel, mostrando-lhes que não davam atenção a certos textos que esclareciam a doutrina. Seus exageros acerca do sábado e seu relaxamento em relação ao divórcio provinham de negligenciarem certas escrituras, e também o erro dos saduceus sobre a vida eterna e ressurreição resultava da mesma ignorância ( Mt 12.3 a 5; 19.36 e 22.29)
Em regra, a linguagem da Bíblia é clara, inteligível, toda a vez que surjam dúvidas sobre o sentido de uma palavra, de uma frase ou de uma sentença, procuremos firmar a interpretação no conjunto do ensino que se deparam na própria bíblia a tal respeito.
Os principais auxílios que se deparam na própria Bíblia para sua correta interpretação encontram-se.

Ø      No contexto;
Ø      No conhecimento do vocabulário do escritor;
Ø      Na observância do vocabulário bíblico geral;
Ø      Nos paralelismos;
Ø      Em descobrir-se o intuito do escritor;
Ø      Na correlação existente entre várias passagens.



1- Contexto

A lei do contexto é uma das primeiras leis que regem a interpretação. Muitas interpretações errôneas têm sua origem na desconsideração desta norma tão óbvia.


            O vocábulo texto deriva-se do latim textu, e significa “tecido” ou de texere, “tecer”. Dentro da figura de linguagem quer dizer reunir, construir, compor, conjunto de palavras ou ainda expressar pensamento em discurso ou obra escrita. Assim, contexto é o nexo recíproco dos vários elementos duma oração, sejam próximos (contexto imediato), sejam distantes (contexto remoto).
         Num texto, ou uma seqüência de textos, o contexto é constituído pela seqüência de parágrafos ou blocos que precedem e seguem imediatamente o texto, e que podem, de uma forma ou de outra, fazer pesar sobre o texto certas coerções.

Importância de se Conhecer o Contexto

O exame do contexto é extremamente importante por três razões:

As palavras, as locuções e as frases podem assumir sentidos múltiplos.
O contexto neste caso vai determinar qual o sentido exato do termo usado, como veremos adiante. Não somos escusados de frisar que não basta apenas decompor o termo considerado em seus aspectos etimológicos, é necessário compreende-lo em relação ao conjunto geral da frase.
O significado de um termo nem sempre se projeta baseado em sua raiz. É necessário que se analise o signo lingüístico com a luz refletida pela frase e pelo contexto a que pertence. No entanto, verdade é que um vocábulo espelha o significado de sua raiz e de sua composição.
Os pensamentos normalmente são expressos por seqüências de palavras ou de frase.
Os sentidos de uma palavra (unidade) podem ser captados de acordo com a frase (conjunto), pois o termo e a frase estão associados dando entendimento um ao outro, da palavra à frase (várias unidades formando um conjunto) e da frase à palavra (o conjunto limitando, aí o sentido da palavra).
Deve-se lembrar que o sentido de um termo qualquer em uma frase geralmente é determinado pelos artigos, verbos, adjetivos, etc., que o precedem e sucedem (tal como veremos no contexto gramatical).
Desconsiderar o contexto acarreta interpretações falsas, além de se constituir numa eisegese.




            Tipos de Contexto


         A interpretação da Bíblia deve levar em consideração os diversos tipos de contexto.







         Contexto Inicial
           
            É a própria frase ou versículo em que o termo foi usado.
         Antes mesmo de recorrer ao contexto imediato e remoto, é extremamente necessário entender o texto (frase) onde o termo aparece em seu conjunto.
         Não se deve dar prosseguimento a uma interpretação enquanto os termos principais não forem devidamente compreendidos, isto é, determinado os seus significados. Assim sendo, mesmo que o contexto seja irregular, ele não é independente da frase que o forma, mas uma unidade relacionada com todos os elementos semânticos que o compõem.
         Na análise das unidades que estruturam o texto, pretende-se conhecer sua estrutura a fim de absorver sua mensagem com todo colorido pincelado pelo autor. Analisar o texto é entrar em diálogo com o seu autor.


            Contexto imediato
           
            O contexto imediato é aquele que procede imediatamente ao texto. Quando o texto está numa seqüência ordenada, é um termo ou um texto que sucede imediatamente o outro de modo racional, lógico e coerente.
         O contexto imediato de um versículo ou texto é formado pelos textos que vêm antes e depois do versículo considerado.
         Deve-se:
         1- verificar a situação histórica do texto;
         2- saber quem foi o autor;
         3- a quem o autor destinou o escrito;
         4- e qual foi o propósito do autor.

         Assim sendo:

         O contexto imediato de um versículo é o parágrafo pelo qual é formado;
         O contexto de um parágrafo é o capítulo que o forma;
         O capítulo é todo o livro.

            Contexto remoto

            É um contexto maior que a palavra ou versículo que precede ou segue o versículo considerado. É formado pelas passagens que não vêm imediatamente antes ou depois do texto, mas que se referem ao assunto do texto.
         Além de o exegeta contar com o esclarecimento do texto, derivado do contexto imediato, ele também é auxiliado pelo contexto remoto. Pois este é formado por todas as passagens que se referem ao assunto do texto.

            Contexto Gramatical e Lógico

            Contexto gramatical e lógico rege-se simultaneamente pelas leis da gramática e da lógica. O contexto gramatical e lógico confunde-se de modo que é impossível falar de um sem penetrar na esfera de ação do outro.
         O contexto gramatical estuda as regras para a construção e coordenação das frases, exclusivamente através da sintaxe, a disposição das palavras na oração e das orações no período.
         Entende-se por lógica a ciência do raciocínio correto. O contexto lógico ocupa-se do estudo da coerência interna do pensamento e o modo como são aplicados. O objeto do contexto lógico é verificar a relação existente entre os termos de uma mesma frase, e daí determinar sua viabilidade ou incoerência.
         O propósito do contexto gramatical é verificar o nexo dos termos com outros termos na mesma frase, e a relação da oração com outras orações do mesmo período. No contexto lógico, entretanto, a conexão das idéias de uma determinada sentença, oração ou frase, relativas a outras orações do mesmo parágrafo, capítulo ou livro do mesmo autor.
         O contexto lógico apresenta-se unido ao gramatical, principalmente através do uso de palavras que estabelecem ligações entre dois termos ou duas orações, os chamados conectivos. Os conectivos podem apresentar-se como preposições, conjunções, etc.
                       


            2- Vocabulário do escritor

            Às vezes é preciso verificar cuidadosamente em que sentido um escritor usa certa palavra a fim de termos a compreensão exata de um texto em que ele aparece. Nos escritos do apóstolo João, por exemplo, aparece muitas vezes  a palavra mandamento. Eis um texto que alguns citam com o fim de provar que debaixo da lei ( I Jo 2,4 ). “ aquele que diz: eu o conheço, e não guarda os seus mandamentos, é mentiroso, e nele não está a verdade”. Ocupava-se João aqui dos mandamentos do decálogo? Estará ele em contradição com Paulo, que segundo Rm 7.1 a 6 a mesma palavra tem o sentido do decálogo? Se tomarmos uma concordância bíblica e examinarmos nos escritos de João o emprego da palavra mandamento e seu plural, veremos que nem um única vez se refere ao decálogo.
E não só isto, mas encontraremos em I João 3.23 sua própria definição do termo por ele empregado: “ e o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros “. Comparemos esta afirmativa com as palavras de Jesus em Jo 6,29; 13.34; 15.12.
         Do mesmo modo temos que acertar o sentido de frase como por exemplo “ o reino dos céus “ empregada por Mateus ( Mt 4,17; 11.11e 12; 13.11) que é do mesmo assunto de “ reino de Deus” empregada por Lucas e Marcos ( Mc 1.14; Lc 7,28; 8.10; 16.16), em seus respectivos textos. O mesmo sucede com a expressão “ a justiça de Deus”, usada por Paulo e “ o caminho” usada por Lucas em Atos 24.14 e muitas outras expressões e termos peculiares a certos escritores.



            3- Vocabulário bíblico geral

            Assim como há palavras e frase peculiares a certos escritores sagrados; há também palavras e expressões bíblicas cujo sentido tem de ser determinado, não unicamente pelos dicionaristas antigos e modernos, nem pelo uso de escritores profanos que foram contemporâneos dos que escreveram a bíblia e falavam o mesmo idioma. E sim pelo emprego que delas fizeram os próprios escritores sagrados, pois estes, usando da linguagem existente, tiveram necessidade de exprimir idéias que essa linguagem não podia transmitir com a exatidão desejada senão por uma adaptação nova.
         A palavra justificar, por exemplo, assim se define no dicionário: Provar a inocência de... Restituir ao estado de inocência. Ora, em Rm 4.1-5 Paulo argumenta sobre a justificação de Abraão, mostrando que este foi justificado pela fé, e conclui: “ Mas aquele que não pratica, mas crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é imputada como justiça”. Qual seria o sentido aqui do verbo justificar? Não é provar a justiça ou inocência, pois como poderia Deus provar a justiça ou inocência do ímpio? Também não é “restituir ao estado de inocência”, porque a última cláusula mostra que esse ato de justificar consiste em imputar como justiça o ato de crer; e imputar é o mesmo que tomar conta, ou lançar à conta de quem crê em Jesus Cristo aquela justiça perfeita que este realizou mediante seu sacrifício redentor no calvário.
         Estão neste caso muitas palavras e expressões que na bíblia se empregam com significação especial, que se tem de verificar pela comparação de diversos textos  e pela observação cuidadosa dos respectivos contextos.
         No caso das palavras transliteradas das línguas por falta de correspondentes nas línguas modernas, ainda mais necessário é seguir este critério. Assim as palavras igreja, batizar e batismo têm nas escrituras um uso especial que não pode ser determinado por mera consulta aos dicionários gregos nem às obras clássicas dessa língua.
         É preciso comparar os sagrados textos e basear neles a verdadeira interpretação. São muitíssimos numerosos os casos em que precisamos recorrer ao “usus loquendi” das Escrituras.


            4- Paralelismo


            É igualmente importante que sejam comparadas as passagens paralelas.
         Há duas classes de paralelismo: os verbais e os reais.
         Chamam-se paralelismos verbais as passagens em que ocorrem a mesma palavra. São as bases de construção das concordâncias bíblicas e da maioria de referências marginais que se encontra em certas edições das Escrituras.
         Paralelismos reais são as passagens em que, apareça ou não uma ou mais palavras em comum, se trata do mesmo assunto ou se expõe a mesma doutrina.
         Os quatro evangelhos nos fornecem os mais notáveis casos de paralelismos reais. O milagre da multiplicação dos cincos pães e dois peixes, por exemplo, é narrado por todos os quatro evangelistas. Assim também a paixão, morte e ressurreição do Senhor. Os livros dos Reis e das Crônicas juntamente com certos capítulos de Isaías e alguns Salmos são exemplos de paralelismos reais.
         O valor hermenêutico das passagens paralelas, que se trate de paralelismos reais quer verbais, consiste na possibilidade de comparar textos que se nos afigurem algum tanto obscuros com outros que, tratando do mesmo assunto ou empregando certa palavra ou frase cujo sentido procuramos descobrir, venham projetar sobre eles uma nova luz.
         No apocalipse 3.5, por exemplo, promete-se: “ o que vencer será vestido de vestes brancas”. O leitor há de se atinar desde logo que temos linguagem figurada ou simbólica; resta-lhe, porém, descobrir de que são símbolos as tais vestes. Uma bíblia com referência apontar-lhe-á o v. 8 do cap. 19 onde se a chave do símbolo: “ e foi lhe dado que se vestisse de linho fino, puro e resplandecente, porque o linho fino são as justiças dos santos”. “Outras referências nos conduzem a Isaías, onde se diz: as vossas justiças são trapos de imundícies”, e as bodas do Filho do Rei em Mateus, onde um homem é lançado fora nas trevas exteriores, porque não estava das vestes nupciais.
         De igual modo as narrativas paralelas dos evangelhos se completam umas às outras do ponto de vista histórico. Convém reconhecer, entretanto, que cada livro da bíblia tem seu intuito especial, todo seu -  tem sua própria mensagem, que se deve descobrir à luz do seu contexto, de modo que os fatos que cada um narra em paralelo com os outros não são meras repetições ou cópias daquilo que os outros escreveram. As chamadas harmonias dos evangelhos, muito úteis ao aspecto histórico, serão antes empecilhos à boa interpretação, se nos levam a fundir os quatro evangelhos em um só, obliterando deste modo o intuito especial de cada um dos evangelistas.


5- Intuito do Escritor

            Assim chegamos muito naturalmente a este outro auxílio que se nos depara na interpretação da Bíblia. Saber qual é o intuito do escritor é colocar-nos do seu ponto de vista e segui-lo nos seus processos mentais.
         Às vezes o próprio autor declara o seu intuito, como o faz o apóstolo João no fim do seu evangelho (20.30,31) e Lucas no começo do seu (1.1-4); outras vezes se deduz da introdução, como geralmente acontece nas epístolas (Rm 1,1-7; Gl 1.6,7; I Tm 1.3,4; etc.); deduz-se em outros casos de uma frase que lhe serve de chave, como a expressão “No Deserto” (Nm 1,1), que os hebreus empregaram como título do livro chamado Números; ou a frase tantas vezes repetitiva no Eclesiastes – “debaixo do sol”.
         Em certos casos não será tão fácil determinar o intuito do escritor, tornando-se necessário ler todo o livro várias vezes do princípio ao fim até conseguir uma vista do conjunto.

6- Correlação

            A Bíblia é um todo harmônico e bem ajustado, apesar de composta de sessenta  e seis livretos escritos no decurso de mil e seiscentos anos por pessoas de variadas condições sociais e não menos variado grau de cultura mental. Há em toda a Bíblia uma unidade de propósito, um fio doutrinário ininterrupto, uma perfeita harmonia moral e espiritual e uma constante progressão na revelação de suas verdades, que têm causado a admiração das maiores celebridades da cultura humana e que demonstram cabalmente ser um só o AUTOR dela, ainda que muitos os escritores.

         Em um todo de tal natureza, há sempre partes correlatas.

1)     Há profecias e seu cumprimento.
Se bem que haja dentro de cada um dos Testamentos certas profecias cujo cumprimento nele mesmo se registra, a grande massa das profecias pertence ao Antigo Testamento e a narração de seu cumprimento se encontra no Novo. Ex. Miquéias 5.2
2)     Há tipos de várias modalidades a que correspondem os respectivos antítipos,
também encontradas na Bíblia. Ex. Isaque e Rebeca com Jesus e a Igreja.
3)     Há verdades enunciadas em linguagem doutrinária, moral e filosófica em certas
passagens, e em outras se encontram ilustrações exatamente correlatas. Tem-se dito que o Novo Testamento contém a doutrina e o Antigo Testamento as ilustrações (ver I Cor. 10.1-13).
         No Novo Testamento podemos exemplificar esse fato comparando João 14.6 com Lucas 15.1-24. Neste exemplo encontramos os três atributos de Cristo ilustrados pela tríplice parábola do seguinte modo:
A ovelha perdida que o pastor acha e leva aos ombros ilustra a declaração: “Eu sou o caminho”.
A moeda perdida que, para se achar, precisa de candeia acesa corresponde à asserção: “Eu sou a verdade”.
O filho que se tinha perdido e se achou, que era morto e reviveu, mostra a necessidade que tem o homem daquele que disse: “Eu sou a vida”.


O Estudante cuidadoso encontrará por si mesmo muitas correlações desta natureza para enriquecimento do seu patrimônio doutrinário e corroboração de sua fé. Que Deus continue sendo sua inspiração, estude sempre com afinco. Cumpra o teu Ministério.

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